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sábado, 24 de novembro de 2012

MDNA Tour: a jornada de Madonna.

NOTA: esta review do show é cheia de spoilers, mas cheia mesmo, então não leia se quiser manter a surpresa!



Queria deixar para falar da MDNA Tour aqui no blog após assistir ao show, mas como provavelmente eu terei um relato mais emocional do que descritivo nessas condições, decidi discorrer sobre o que já conheço da apresentação, através do que li, assisti e ouvi. Bastante coisa, por sinal. Acho que estou fazendo isso também para acalmar um pouco a ansiedade, já que agora faltam menos de 10 dias para eu finalmente estar de frente à cantora, que me acompanha há mais de 10 anos. Então, vamos lá.

Esta é a 9ª turnê de Madonna, dá apoio promocional a seu 12ª disco de estúdio, MDNA, mas serve também de comemoração às 3 décadas de carreira da Rainha do Pop. Não à toa, o disco em si soa como uma retrospectiva de muitos dos elementos que Madge explorou em sua vida artística, indo desde a iconografia religiosa até as influências orientais. Acontece que as diferentes temáticas da tour também nos remetem a estes ícones, numa viagem que, de forma grosseira, resume-se no caminho de uma alma da completa escuridão até a iluminação. É dessa forma que vemos uma garota enlouquecida alcançar paz e, enfim, ter a chance de celebração! Antes de me aprofundar nisso, porém, falarei um pouco sobre a tecnologia envolvida em sua produção.

O imenso palco da MDNA Tour é amparado por três grandes telões, nos quais surgem as ilustrações de cada performance. A ambientação é dada também por 36 blocos de LED, projetando-se do chão e formando desde níveis no palco até estruturas mais complexas, como os "três ônibus" de I'm A Sinner e as "cabines de DJ" em Celebration. Tal amparo tecnológico tem sido, nas turnês recentes de Madonna, uma maneira extremamente bem sucedida de substituir o excesso de elementos cenográficos, dando assim uma aparência mais limpa ao espaço. Isso no entanto não quer dizer que eles não existam, já que em momentos mais teatrais da apresentação acabam aparecendo, a exemplo do quarto de motel em Gang Bang. Para mim, aliar tecnologia a seus espetáculos é sempre um lado positivo das performances de Madge. No entanto, meu objetivo maior nesse texto é me debruçar sobre os temas da turnê, e para isso vou começar do começo...



O show se divide em quatro blocos temáticos, e no inicial, chamado de "Transgressão", a cantora explora exatamente o lado mais obscuro das emoções, amparando-se numa diversidade de referências a demônios íntimos que vivem em cada um de nós. O primeiro desses demônios, bem característico da própria Madonna, é a religião como ferramenta de opressão e ódio. O show é aberto por cânticos de caráter litúrgico, entoados pelo trio de música basca Kalakan, enquanto um imenso turíbulo é erguido e movimentado como um pêndulo no palco, pela ação de "monges" vestidos em mantos escarlates. Surgem também quatro dançarinos com máscaras de gárgulas, contorcendo-se em movimentos bizarros, até finalmente ouvirmos a voz de Madonna, orando o "Act of Contrition". É aí que uma estrutura dourada mostra-se entre as duas metades do telão principal, e nela vemos uma noiva toda de preto, ajoelhada e portando consigo uma metralhadora. Ao quebrar o vidro daquele altar com a arma, M mostra-se ao público pela primeira vez e começa Girl Gone Wild, numa coreografia sufocante ao lado daqueles monges, agora despidos e usando somente uma calça justa e salto alto. O cume desta performance é sem dúvida a ponte que leva ao refrão final, na qual os efeitos visuais combinam-se com os passos de dança e mostram uma Madonna caindo dos céus... De longe, um dos melhores momentos!

Passada a primeira música, é começada Revolver, e dessa vez são as dançarinas que surgem com armas pesadas para, junto a Madonna, formarem a quadrilha das Beautiful Killers. Um dos primeiros contrastes que chama atenção nesse momento é a suposta inversão de papéis entre as duas canções: enquanto em GGW, são os dançarinos que usam saltos e se expressam de forma afetada, nessa música quem assume um papel agressivo e voraz são mulheres. Enfim, a temática masculino/feminino volta a se fazer presente na terceira parte, e lá tentarei explicar em que ele se encaixa no espetáculo. Mas, dando continuidade ao bloco, chegamos a seu ápice na terceira música do show, quando Madge pega sua arma, e dentro de um quarto de motel ("paradise motel", por sinal), começa sua saga de assassinatos até conseguir matar seu maior desafeto, um antigo romance; isso é Gang Bang. Com sua coreografia milimétrica, é um dos momentos mais explosivos e intensos do show, e até da carreira de Madonna em si. A garota pirada de GGW sai matando um a um seus agressores, até começar uma pulsante luta corporal com seu último alvo (durante o dubstep da canção) e finalmente conseguir exterminá-lo.

A questão é que ainda durante esta música, a personagem demonstra sinais de insanidade, até surgir o arrependimento e junto a ele, todos os demônios que ainda a perseguem; começa Papa Don't Preach. Mudando de forma contundente o sentido da canção, esta agora soa como um discurso de alguém saturado e que percebe ter feito a escolha errada. E à medida que canta, aproximam-se de Madonna os tais demônios, dotados de máscaras animais e prontos para capturá-la e levá-la ao limbo... Hung Up, numa versão mais sombria e completamente subvertida, entra em cena para representar tal situação. No entanto, esta música ganha uma ressalva especial: ela funciona como um turning point, usando-se da corda bamba (slackline) como mais uma metáfora para se referir ao delicado limite entre o céu e o inferno. Uma Madonna até então acorrentada é levada a atravessar tais cordas, enquanto ressoam os versos "you'll be sorry" e "please, forgive me". Ao terminar o percurso, a iluminação do palco, que começa vermelha, torna-se azulada sobre a própria cantora, representando que ali ela se tornou senhora de tudo o que lhe afligia. Não à toa, ela usa os dançarinos mascarados como uma escada, domando-os e finalmente podendo dizer, de forma categórica, que ela não dá a mínima. I don't give A!



Cantando de forma agressiva que "faz 10 coisas ao mesmo tempo, e se você tem problema com isso, eu não dou a mínima", o bloco é concluído com um rompante de autoafirmação, reiterado pelo já clássico verso de Nicki Minaj: "There's Only One Queen, and that's Madonna, Bitch!". Nesse momento, Madonna é elevada ao ponto mais alto do palco sob a luz de uma cruz imensa, onde se lê MDNA invés de INRI, estendendo sua mão com avidez, como se tentasse alcançar de fato o que está acima. É aí que chegamos num momento emblemático: a estrutura da catedral apresentada durante o começo do bloco volta a aparecer, e num último instante, quebra-se em pedaços que se desmancham de uma única vez. O primeiro grande demônio que vem e vai pelo show é domado: a opressão religiosa.

Passado esse momento vigoroso, somos levados a um intervalo, num mash up das canções Heartbeat/Best Friend. Este abre o segundo bloco da tour, "Profecia". Enquanto alguns dos dançarinos fazem movimentos semelhantes aos dos gárgulas que abrem o bloco anterior, os telões exibem imagens de um cortejo fúnebre, passando por lápides onde se pode ler palavras como "Fé", "Infinito", e a citação "What Man Doth Foolishly Call Death" ("O que fez o homem tolamente chama-se morte"). Mesmo passando uma sensação funesta, ao cantar "it's so sad that it had to end", a mensagem deixada no telão é "Love Is Above All" - como um epitáfio, seria a mensagem que Madonna através de seu trabalho quis deixar; emendamos dessa forma com um hino ao amor próprio: Express Yourself.

Usando figurino de Majorette (para o qual muita gente torceu o nariz), ela surge novamente do meio das telas, onde agora são apresentadas imagens que misturam elementos de pop art, quadrinhos e anúncios antigos dos EUA. A mensagem por trás desses elementos é um acompanhamento literal da letra da música, mas vale salientar o momento em que três casais desenhados (um de lésbicas, outro de gay e o terceiro heterossexual) aparecem se beijando. A performance é selada com o polêmico acréscimo de Born This Way ao final, cantada nota a nota sobre a base de Express Yourself, para depois ser emendada com um abusado "she's not me, she's not me"... Essa é a deixa perfeita para a introdução de Give Me All Your Luvin', canção que fala sobre Madonna ainda ser a maioral. No show, GMAYL ganhou uma versão vigorosa, com direito a tamboristas pelos ares e uma coreografia de líder de torcida de deixar qualquer um de queixo caído. Essas duas músicas são seguidas de um pequeno intervalo, no qual ela troca de roupa novamente e aparece tocando em sua guitarra Turn Up The Radio.



Passada Turn Up The Radio, chegamos a um dos instantes mais inventivos do concerto, com a participação mais que pronunciada do trio Kalakan. Usando uma base de música basca, Open Your Heart é apresentada numa versão acústica e cativante. Os cantores do Kalakan são finalmente apresentados ao público, fazendo vocais base e tocando instrumentos percussivos que ditam todo o charme da nova versão. A performance é selada com uma música do próprio trio, "Sagarra Jo !", criando um momento de êxtase semelhante a La Isla Bonita de 2008, na Sticky and Sweet Tour. Com a apresentação concluída, Madonna aproveita para recuperar o fôlego e conversar com o público sobre qualquer assunto corrente, e foi justo nessas conversas que ela levantou questões polêmicas, como a prisão das Pussy Riot, a lei anti-propaganda gay de São Petersburgo, e as eleições norteamericanas. Mesmo tendo incluído "minicanções" em alguns dos shows (Holiday, Everybody, Give It 2 Me com PSY), normalmente o discurso é seguido por Masterpiece, também amparada pelos vocais do Kalakan.

Após cantar o último "Nothing's Indestructible", Madonna sai do palco e começa o segundo grande intervalo do show, numa versão extremamente provocante para Justify My Love. Primeiro ouvimos temas circenses e vemos palhaços segurando câmeras e correndo atrás da cantora; ela então consegue se trancar num salão luxuoso e lá mostra sua sensualidade ao som da nova versão da canção (produzida aqui por William Orbit). Bem dizer, esse vídeo tem por objetivo tocar no segundo demônio que a perseguiu, especialmente este ano: o ageism, preconceito com pessoas mais velhas. Ao se mostrar completamente sexual com 54 anos de idade, Madonna responde a todos os que a criticam através de sua imagem, não dando muita brecha para quem a acha muito velha para fazer o que faz. Justify My Love também abre caminho para o 3º bloco do show, batizado "Masculino/Feminino", e que se constrói, à semelhança da dualidade Girl Gone Wild/Revolver, no questionamento de quais papéis são femininos e masculinos, especialmente em termos estéticos.

Começamos aqui com Vogue, numa versão parecida com a do Super Bowl, mas apresentada com um novo apelo visual: Jean Paul Gautier foi convidado a reinventar o corselet usado pela cantora na Blond Ambition Tour, tornando-o assim numa armação metálica e dotada dos icônicos seios em cone. Os dançarinos, por sua vez, usam peças "trocadas" ou de caráter andrógino, fazendo alusão ao tema geral da 3ª parte, seguindo no entanto a coreografia apresentada no Half Time Show do início do ano. Passada Vogue, porém, temos um momento de grande surpresa para todos os fãs: Candy Shop. A nova versão da música, ambientada agora numa atmosfera mais jazz e sensual que a original, é perfeita para o cenário cabaré que se forma no palco. Ainda há espaço para uma coreografia bem saliente de Madonna e seu namorado (e dançarino da tour) Brahim Zaibat, quando no meio da música há um rompante da emblemática Erotica ("Put your hands all over my body"...). Após abusar de seu lado mais sexy, chega a hora de falar diretamente a quem a critica por ainda agir assim, o que nos leva a uma performance ainda mais contundente, com direito a strip tease...



Em Human Nature, Madonna canta rodeada de espelhos sobre o escrutínio que até hoje vê em torno de seu nome, até começar a se despir, do meio para o fim da música. Este é um momento importante do concerto, por dois motivos. O primeiro deles é que, de costas nuas, a cantora expunha uma tatuagem que virou marca registrada desta turnê. A mais utilizada era o dizer "No Fear", porém, a depender de onde a tour passasse, M também fazia diferentes homenagens. Foi o ocorrido com Obama, as Pussy Riot, e a garota paquistanesa Malala, vítima de um atentado do talibã por manter um blog no qual falava dos problemas educacionais de sua comunidade. O segundo motivo é que, após o strip tease, Madonna ficava completamente vulnerável e entregava uma reedição também despida e sutil de um de seus maiores hits, Like a Virgin.

Esta música é cantada em versão acústica, tendo como base a belíssima Evgeni's Waltz, composição de seu filme W.E., e assume um tom de lamento, como de um amor perdido, da lembrança de alguém que a fez se sentir como uma virgem novamente, mas que já não está mais a seu lado. Parece-me óbvio ter sido esta uma performance dedicada a seu ex-marido Guy Ritchie, havendo espaço nela para mais uma metáfora que reforça seu tom lamurioso: durante Human Nature, o telão mostra a imagem de um homem observando Madonna constantemente; ao final, esse homem "sai" do vídeo, e acaba aparecendo presencialmente para o clímax de Like a Virgin. É nesse instante que ela tem um espartilho preso à sua cintura, o qual é puxado pelo tal homem até deixá-la praticamente sufocada. Ele então solta as cordas do espartilho, deixando-a para trás, até ela sentar no banco do piano no qual a canção era tocada, para descer com ele à parte interna do palco. A ideia, possivelmente, é de que aquele relacionamento, mesmo tendo sido especial, acabava a sufocando, o que denota que seu fim talvez tenha sido o melhor.

É preciso reforçar que esta última apresentação sofreu no meio da tour uma grande mudança, com a inclusão de Love Spent para finalizá-la. A novidade deu um tom um pouco mais rancoroso ao ensejo, já que agora, invés de Madonna somente lamentar a perda do amado, demonstra ter percebido que ele tinha interesses um pouco diferentes do dela no relacionamento... Mesmo sendo mantido o sufocamento pelo espartilho, Like a Virgin/Love Spent torna-se sem dúvida o exorcismo do terceiro demônio: as mágoas de um amor mal resolvido. Tanto que ao final da canção, a cantora sai catando o dinheiro que estava jogado pelo chão para entregá-lo, de forma raivosa, à sua antiga paixão (nota: este dinheiro surgiu somente com a inclusão, e cabe muito bem no novo contexto).



Passados tantos exorcismos, é chegado o 4º e último bloco da tour, não à toa chamado de "Redenção". E ele é iniciado com o último vídeo de intervalo do show, o qual foi motivo de buzz na internet quando vazou em alta qualidade no youtube: Nobody Knows Me. É de praxe que em turnês de Madonna um dos intervalos tenha um tom mais político e de intensa crítica social, e nessa não foi diferente; para tal música, a cantora aparece primeiro de rosto limpo, e à medida que o vídeo transcorre, nele são incluídos recortes de outros rostos, símbolos diversos e imagens de conflitos e desastres espalhados pelo mundo. Foi inclusive desta gravação que surgiu a polêmica com a política francesa de extrema direita Marine Le Pen, uma vez que o rosto de Marine é colado no de Madonna, e pouco depois uma suástica (reconhecido símbolo nazista) aparecia em sua testa. Em suma, Nobody Knows Me é rica de significados, e abre caminho para I'm Addicted, a pulsante canção que retoma os trabalhos.

Interpretando algo como Joana D'Arc, Madonna traz na coreografia de I'm Addicted referências a artes marciais, num momento visualmente futurista e tematicamente ligado a elementos orientais. É a partir destes elementos inclusive que se segue a canção I'm A Sinner, reciclando a temática religiosa, mas num tocante mais espiritualista e lisérgico. Além dos três ônibus que se formam com os cubos de LED no palco, e que parecem estar em movimento quando contrastados às paisagens indianas apresentadas no background, há também de se notar que os gárgulas surgidos no início do espetáculo, antes de Girl Gone Wild, agora são monges hindus fazendo malabarismos corporais de Yoga. Ao final, surge um trecho de Cyberraga, música em sânscrito gravada para o disco Music e cantada aqui junto ao trio Kalakan. É este o momento em que a redenção toma forma de verdade, e como que vindo de um transe espiritual causado pelos cânticos, floresce o ápice da apresentação: Like A Prayer.

Numa versão semelhante à original, Like a Prayer é anunciada pelos sinos que abrem o concerto, e tem como novidade a presença concreta de um coral no palco (formado pelos dançarinos e algumas das pessoas envolvidas no backstage). Madonna se entrega por completo na performance, indo de lá para cá e interagindo bastante com o público; é possível até ouvir nas gravações amadoras da tour a voz de fãs cantando em seu microfone! Próximo do final, ela se aproxima da frente da plataforma, e entoa os versos que finalmente concretizam o show: "Life is a mistery, everyone must stand alone, I hear you call my name, and it feels like HOME".



Há espaço ainda para um encore: uma performance quase acrobática de Celebration. Ela deve simbolizar o estado de graça que advém da libertação, e recentemente tem sido apresentada junto a Give It 2 Me, mudança essa que deve vir ao Brasil.

A MDNA Tour é mais um grande espetáculo no qual tudo o que Madonna sabe de melhor é apresentado perante os olhos do público. Há dança, mistério, há doçura, lamento e ainda um pouco de terror. O interessante é perceber como esses elementos transcorrem naturalmente e nos levam, durante as duas horas de espetáculo, a viajar com a cantora de um estado de espírito a outro. Do escuro à luz. Da dor à cicatriz. E como a própria Madonna disse a Luciano Huck em entrevista recente, entregar-se aos shows foi sua maneira de se libertar de questões pessoais que ainda a machucavam - certamente, viajar com ela pode nos proporcionar o mesmo sentimento.


8 comentários:

  1. Mto bom o texto! Aguardando o DVD ansiosamente!

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  2. muito bem cara merece o meu respeito kkk!!! mtooo bom msm ;)

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  3. Interessantíssimo! Minha visão geral do show mudou quase por completo! Passei a focar mais atenção à pequenos detalhes...

    Obrigado! Ótims leitura :D

    P.s.: Poderia fazer mais reviews/análises de outras tours? Valeu ;)

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    1. Eu decidi escrever sobre a MDNA porque ela tem um sentido maior que orienta o espetáculo como um todo. Posso até me aventurar nas outras tours, mas acho que como narrativa a de 2012 é a mais explorável hehehehe

      Se postar alguma novidade, espero que vc aprecie :D

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